Noite-Onda

Não era veneno que preenchia aqueles copos, mas escorria das barbas com o mesmo compasso fúnebre das bebidas que têm sede. As luzes davam um tom opaco ao ambiente e derretiam pelas paredes alaranjadas. Coisas específicas e particulares como o ritmo da música (uma espécie de marchinha indie), o clima mormacento e a cara daquelas pessoas uniam-se dando à luz uma atmosfera singularmente pesada. Dois ou três gatos circulavam entre as pessoas, esfregando suas carências nas pernas humanas e demais estruturas de suporte esparramadas pelo local. O cômodo inteiro exclamava um conflito por liberdade. A fumaça, bem lá em cima, demonstrava que tudo, enfim, era uma coisa só. E, quando Bernardo percebeu isso, tudo mais já era distância.

Na esquina do açougue do Benhur, tinha acontecido um acidente: Osvaldo, em seu terno verde-limão, subiu, com uma bicicleta de trilha, no capô de um Gol quadrado que aguardava para entrar na Dom Pedro. Bernardo era parte do caos, e, mesmo assim, era distância. Agia como se pudesse fugir, mas a consciência de ser onda atraía suas partículas, como que magneticamente, para o centro do caos. Após ser expelido aos empurrões, Bernardo deixou a casa das tigelas e retomou, enfim, sua caminhada.

Descendo até a baixada, Bernardo passou na frente dos bares da região da faculdade de letras e artes e caminhou em direção ao porto, levando sua embarcação no rumo de algum farol que indicasse um sentido. Ali, naquela mesma região, em frente ao Bar Cabernet, ancorada em uma mesa de madeira, Rita tomava uma cerveja, fumando momentos e suspirando a satisfação de ser e estar.

Rita tinha herdado o mundo de um mendigo, ainda na infância. Era dona, também, de uma expressão que indicava ter qualquer situação sob controle. Naquela noite, podia beber o quanto quisesse, segundo ela leu em um reflexo da lua, recém-nascida, parida pelo mar. Após apagar o cigarro, entrou no bar decidida a trocar a música que saía pelos alto-falantes (não suportaria sequer mais uma baladinha anos 90).

Bernardo ainda conversava com a noite, quando percebeu que, apesar dos passos dados e de todo o deslocamento espacial, talvez não tivesse se deslocado na dimensão temporal. Em posse da dúvida, andou mais um pouco. À frente do Bar Cabernet perguntou as horas para dois caras que compartilhavam uma mesa e a densa atmosfera típica dos romances nascituros. Pelo rompimento inesperado da conexão do casal iminente, recebeu um olhar ríspido de um dos caras. O outro pegou o celular e informou em que altura da madrugada aquele momento, estranho para todos os envolvidos, se inseria. Bernardo suspirou e agradeceu, sentando no meio-fio da calçada, em ato contínuo.

O Bar Cabernet não estava tão movimentado quanto nos dias de fim de semestre, contando com uma clientela regular, apesar do esvaziamento da cidade típico do recesso acadêmico. Por um instante, logo após a pausa do Kid Abelha, que antes ressoava motivos românticos, Bernardo, considerando a quietude ao redor, chegou a pensar em indagar novamente a respeito do tempo, mas, logo em seguida, como uma folha que dança ao som do vento, Rita saiu pela porta do bar levada pelo riff de Tony Iommi que introduzia Paranoid nos alto-falantes externos. Bernardo observou a leveza natural com que os movimentos de Rita contornavam o som e, quase sem perceber, abriu um sorriso puro. Leve, enfim percebeu que poderia fazer parte de uma fumaça maior. Rita ainda era fogo demais para ser fumaça. Bernardo flutuou, erguendo-se do meio-fio e dançou. Por um simples momento, compartilharam uma só combustão, até Rita incendiar a cidade toda e Bernardo se mesclar com as nuvens, se tornando unos com os sonhos e delírios da noite.

O Vazio Escuro da Noite Sem Fim

As gotas pesadas pareciam tentar rasgar a pele de seu rosto. Despertou já chorando. Abrindo os olhos, pôde perceber que não conseguia enxergar nada além de um imenso negror sem fim e de algum trovão que vinha, vez por outra, adornar o céu faminto. A tempestade dominava a atmosfera densa que lhe circundava. Tentou erguer-se, mas o corpo inteiro estava em prantos. Os braços eram tão mais frágeis que a torrente que mal podiam auxiliar na tarefa de pôr-se em pé. Cansada, deixando-se voltar a cair por completo sobre o solo, por fim, acabou encolhendo o corpo em posição fetal.

Soluçando, estendeu a mão em baixo da própria cabeça, sentindo a grama encharcada que lhe servia de travesseiro. Os lábios trêmulos balbuciavam frases sem sentido enquanto a água, que continuava a atingir-lhe violentamente, escorria para dentro da boca. Aos poucos, começou a tentativa de aumentar o volume das frases, entretanto, a chuva era tão forte que sequer conseguia escutar a si mesma. Então, com toda a força que ainda corria nas veias, gritou até doer a garganta. Nenhum som foi ouvido novamente. A laringe, agora, parecia feita de espinhos. Alterando sua respiração, na intensão de amenizar a dor, acabou por expelir todo o ar dos pulmões. Algo apertava o peito e sufocava seu diafragma. A situação a assustou a ponto de erguer-se sobre os joelhos, apoiando-se, ainda, por uma mão ao solo.

Manteve o corpo naquela posição, por um tempo. Esforçava o diafragma, rogava-lhe uma reação. Tinha cansaço na musculatura abdominal. De repente, conseguiu voltar a deixar o ar entrar. Emergiu de um oceano interno. À medida que tornava a respirar, ia sentindo as pernas mais fortes, erguendo-se um pouquinho a cada ciclo pulmonar completo. Respirar era o mínimo, mas era a coisa mais apta a fazê-la sentir-se viva naquele instante. O mundo continuava escuro, todavia, poder senti-lo era motivo suficiente para continuar.

Começou a caminhar, percebendo, sob os pés, a ladeira que se estendia. Hesitou em descer: sabia o quão difícil seria refazer a marcha, caso acabasse se perdendo em brenhas tão profundas. Voltou seu corpo na direção que sentia ser mais íngreme e começou a subir. A princípio, a caminhada não lhe exigia tanto. O músculo posterior das coxas doía um pouco; nada que a impedisse de caminhar até o topo daquele morro, onde, provavelmente, encontraria luz de alguma natureza. A chuva mantinha-se constante, com suas gotas fortes e vento cortante. O corpo todo molhado, mesmo sob as roupas que o cobriam. Sentia as meias encharcadas no interior das botinas.

Após caminhar por algum tempo, sentiu que o solo passou a ser, predominantemente, coberto por pedras lisas e molhadas. Escorregou e acabou batendo o joelho esquerdo. A dor física já não lhe alcançava, queria sair daquela ladeira. Era como se a chuva passasse a segurar seus ombros. O vento, que antes a empurrava na direção do topo, agora soprava, com o pleno pulmão das intempéries, seu corpo em rumo contrário. Sentou em uma pedra para esperar que amenizasse a força contrária exercida pela natureza. A intensidade do temporal perdurou por incontáveis minutos. Todavia, subitamente, toda a atmosfera estatizou-se. O vento acalmara. A água permanecia constante, mas suas gotas já não caíam com o peso de chumbadas lançadas das nuvens. Mais acima, no topo do morro, os raios ainda formavam uma imponente descarga elétrica concentrada. 

De repente, correndo abaixo da sola das botinas, a água que descia em correnteza do topo do morro, começou a envolver toda a terra, como a formação de uma cachoeira, e a água corria caindo livremente de uma ampla distância. As correntes de água já eram tão fortes que tornavam praticamente impossível manter-se em pé. Todo o universo, naquele exato momento, se apresentava como um rio furioso, aparando os excessos das margens com a raiva de um ofendido. Tentar nadar era quase ridículo, mas necessário para quem tinha acordado no vazio escuro daquela noite sem fim. Após algum tempo de tentativa e resistência, com a correnteza morro abaixo, ela afundou. Tentou não desmaiar.

Em estado de transe intenso, ela caminhou, com as distorções da gravidade, no solo do morro, como se tudo aquilo fosse outro planeta. Flutuava morro abaixo, saltando por cima das moitas e pedras do caminho. A corrente, entretanto, começou a se intensificar, morro abaixo. Ela passou a ser sugada, sem conseguir mais controlar os passos antigravitacionais, em força cada vez mais intensa. Tudo só acalmou quando a água pareceu ter sido toda escoada para algum ralo. Então, quando percebeu, já era possível permanecer ereta, estava em uma zona plana, na frente do pátio de sua casa.

Quase recomposta pelo conforto de reconhecer algo depois de tanta escuridão, andou afoita até o pequeno portão de passagem do quintal. Logo na chegada, a boca enorme de um grande cachorro, cheia de dentes visualmente afiados, emanando ferocidade, aproximou um calor congelante de seus sentidos. O animal latiu encarando-a fixamente, mas, como estava preso por uma corrente, não conseguiu fazer mais do que aguçar a atmosfera de pânico da noite dela.

Após ter permanecido imóvel, por alguns segundos, no silêncio do pavor (tinha a voz cansada demais para repreender os males que não chegaram a lhe danificar), virou-se para a porta da varanda e correu o mais rápido que seus pés cansados permitiram. Milhares de cachorros latiram e uivaram em seus ouvidos durante a breve disparada. Quando, enfim, entrou em casa, arrastou-se para o quarto. Da gaveta do bidê, catou uma pequena caixa branca com uma larga tarja preta, puxou uma cartela metálica, de onde destacou um comprimidinho. Engoliu o remédio com as próprias lágrimas, que, em ato contínuo, secaram da face como se nunca tivessem passado por ali. Se sentia segura, ou, pelo menos, já não sentia a multidão de fantasmas povoar a infinita escuridão do universo. Fechou a porta e conseguiu descansar.

Edvard Munch – Aske (Cinzas) [1894]

A Égua de Xenofonte

– Hoje, fazendo as triagens, teve um caso que me assustou muito (e ainda vem me preocupando) – introduziu Santiago, mexendo o adoçante no copo de isopor com café ainda quente.

Elvira, que tomava o seu puro, energizando-se para encarar a jornada posterior ao intervalo, escutava atentamente o relato do colega, enquanto beliscava uma coxinha de frango para enganar a fome.

Com uma notável tensão no olhar – fixo em lugar nenhum -, Santiago, após alguns segundos paralisado encarando seus pensamentos, tirou o celular do bolso e largou o objeto sobre a mesa. A cantina do hospital estava vazia àquela hora da madrugada, com exceção de algumas pessoas escoradas no balcão, aguardando seus pedidos. Ninguém tinha rosto e feições completas: pessoas sem boca e nariz aparentes transitavam com olhares preocupados sobre as máscaras de proteção. Passados alguns minutos, Elvira, que havia terminado de comer o salgadinho frito, voltou o rosto para o colega e ficou mirando sua expressão fixa, como um espectador que aguarda o desenlace de uma cena em que o ator, no palco, esqueceu a fala.

Santiago, emergindo do submundo confuso e obscuro de si mesmo, terminou o café em um gole e prosseguiu relatando suas inquietudes:

– O que me assustou foi a situação de um senhor da idade do meu pai, de fala bem instruída, mas maltrapilho e todo sujo (fedia!). Com febre alta, já chegou alucinando. Era uma alucinação tão intensa que eu tive que gravar com o celular o que ele dizia:

“Eu sou empreendedor, sabe? Já fiz de tudo, fui até funcionário público. Agora, sou empreendedor. Meu patrão sou eu. Faço entrega com o meu riquixá. Até gente eu levo, às vezes. O último frete que eu fiz foi de uma égua, a Égua de Xenofonte (acho que era o nome de um jóquei). Carregaram o bicho no meu riquixá e mandaram entregar em umas carreiras – corrida de cavalo, sabe? Parece que subiu a égua, um cara só pra ir dando cenoura  e outro pra ir limpando a bagunça, eu não via nada, colocaram uma carroceria fechada no meu riquixá. Disseram que se eu entregasse lá, ela ganharia o páreo e todo mundo iria ganhar com o prêmio: eu, o cara que alimentava o bicho, o da limpeza, e mais um monte de gente. Por fora da carroceria, ainda ia, como um cocheiro, um homem de terno, todo enfatiotado, com cara de ministro. Empolgado com o prêmio, motivado com o discurso do homem com cara de ministro, botei o pé na estrada.

Eu suava fazendo força pra carregar aquele peso todo. Na beira da estrada, lá pelas tantas, enxerguei um boteco. Quis parar e pedir um copo d’água, mas o “cara de ministro” gritou que era só eu não me concentrar na sede que ela passava. Disse que eu pensasse no prêmio, que ia ajudar tanta gente. Emendou dizendo que eles já tinham combinado com um outro rapaz que, mais na frente, iria levar água pro bicho e já me alcançava um copo. Acabei seguindo pela estrada.

E, mais na frente, de fato, chegou um cara com um tonel de água no bagageiro de uma bicicleta e atirou o troço lá pra dentro. Olhei pra ele tentando pedir que me desse um pouco, mas foi jogar a bombona lá pra dentro e o guri caiu no chão com a bicicleta. Eu olhei pra trás, encarando o “ministro” e ele fez que não viu.”

– Eu precisava fazer o resto das perguntas, mas o paciente continuava nesse delírio de uma forma tão real que não conseguia nem tentar interromper – explicou Santiago, sem silenciar o aparelho que ainda reproduzia a gravação:

“Onde o guri caiu, ficou. Pensei em largar tudo e tentar levantar ele – um cara trabalhador, que nem nós – quando o “ministro” me viu matutando e gritou: “Essa égua tem que chegar no páreo de uma vez! Se parar, eu chamo outro e tu não recebe nada!”. Segui puxando o riquixá, louco de sede!

Mais na frente, vi outro cara caído na beira da estrada. Puxando mais um pouco, enxerguei uma velhinha, também caída, mal. Olhei pra trás, na cara do “ministro”, e ele disse que muita gente vai morrer, mas que o que interessava era que a Égua de Xenofonte chegasse e ganhasse o páreo, porque todo mundo ia ganhar dinheiro com isso. Falou que iam mandar dinheiro até pro rapaz da bombona d’água se ela ganhasse o páreo. Eu não acreditei, porque, pra mim, aquele guri precisava era de um socorro pra depois ver se ia conseguir fazer alguma coisa com dinheiro.

Outro cara se aproximou de bicicleta, trazendo mais um farnel de cenoura pra Égua de Xenofonte. A essa altura, a fome já me corroía as tripas. Perdi a noção do tempo da viagem. Vinha muito cansado, acho que já viajava há semanas. Pedi, com a mão, uma cenoura. O homem da bicicleta olhou pro “ministro”, que só avisou que eram pra Égua de Xenofonte. Esse trabalhador também tinha cara de fome, ficou cheirando a mão depois de atirar a entrega pra dentro da carroceria.

Acho que, pela poeira da estrada, com a garganta seca que chegava a doer, comecei a tossir desesperado (quase parei o riquixá).  Nisso, o “ministro” avisou que ia entrar na carroceria pra ver como a égua ‘tava sendo tratada. Tentei pedir que lembrasse da minha água. Viu o sinal que eu fiz, mas entrou na carroceria fazendo uma cara como se eu tivesse ofendido algum parente dele. Quase me arrastava na estrada.

Puxava aquele riquixá fazendo uma força tremenda, lembro que me doía o peito! Andava me arrastando, de tão cansado. A tosse já fazia a garganta arder pra caramba (que nem joelho ralado de criança quando vocês besuntam de merthiolate, seu doutor). Fui ficando tonto de tanto tossir, me faltava o ar. De repente, a tosse ficou tão forte que acabei não aguentando: larguei o riquixá, virei e saltei pra cima, abrindo a porta da carroceria. Lá dentro, não ‘tavam mais nem o cara que tratava a Égua de Xenofonte e nem o que limpava a sujeira. Nem a égua ‘tava mais, na verdade. Do bicho, sobrava só uma perna, carneada, na mão do “ministro”, que, atirado pra trás, mastigava devagar.

Aí, eu fiquei puto e passei mal. Acho que é por isso que me trouxeram pra cá.”

Santiago, ainda atônito, pegou o telefone e guardou no bolso.

– 41°C de febre, delírio puro – concluiu.

Elvira, evidentemente consternada, recolocando a máscara no lugar de proteção, se esforçou para retornar ao seu próprio juízo e perguntou o que foi feito com aquele paciente.

– Ele deveria ter baixado, mas como só tem leito particular, foi mandado pra casa, recomendado a não sair por suspeita de Covid.

– Conseguiram contato de algum parente pra levar ele pra casa?

– Acho que ele nem tem casa, Elvira. O Elton, segurança, me disse que, quando ele chegou, ‘tava passando mal dentro de um carrinho daqueles de catador de papelão, aqui perto. O pessoal do ponto de táxi ali da praça é que trouxe ele.

– E agora?

– Agora… acabou o intervalo. O negócio é voltar logo, o plantão é do Doutor Mesquita, que já me falou que a direção do hospital tem cobrado ele. Além do mais, sabe como é, técnico não ganha pra perder tempo se preocupando com o outro.

Santiago ajustou a máscara cobrindo a boca e o nariz e ambos os técnicos em enfermagem deixaram a cantina para trás, com um notável esforço em perder a condição humana para voltar a cumprir a nobre missão de estar acima de todas as fraquezas e calar inúmeras desilusões. Afinal de contas, muitos ainda iriam cair em seus braços antes do prometido páreo da Égua de Xenofonte.

Valentin Serov – Купание лошади (Lavando um Cavalo) [1905]

Ocaso

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Gotas de chuva ainda cutucavam, intermitentemente, os vidros da janela da cozinha. Manuel era a única pessoa em quilômetros. Tinha os olhos inexpressivos fixados no horizonte sem-fim da torrente em campo aberto. Os dedos da mão direita, desde o mindinho ao polegar, dançavam, usando movimentos consecutivos e ordenados que envolviam um pequeno copo de cachaça, girando-o sobre a mesa forrada de toalha plástica. Na mão esquerda, palmeava a cuia de um chimarrão velho e já sem gosto, mas que ainda esperava o novo chiado da chaleira no fogão a lenha. O imenso vazio da escuridão daquele fim de tarde fazia tudo em torno de Manuel ficar mais distante. Era como um cordeiro, recém cegado pelo carancho, berrando a falta da mãe nas coxilhas da solidão. Cansara de berrar. Já não chorava fazia tempo. A vida de Manuel, nestas horas vazias, se resumia em olhar a estrada e beber canha.

Normalmente, aqueceria a janta, escutaria, acomodado em uma cadeira com assento de couro, o programa de notícias, seguido pelas milongas da rádio castelhana que invadia a sintonia do rádio 3 em 1 da varanda, tragando um cigarro de fumo desfiado, enquanto beberia o último copo. Após uma demorada ducha, deitaria, ainda antes das nove, em um dos três quartos da casa antiga. Tinha mania de escolher, aleatoriamente, um quarto diferente a cada noite. Bagunçava todos os cômodos, de forma a expandir a presença humana na atmosfera do ambiente. Entretanto, neste fim de tarde, especificamente, Manuel se deixava atrasar. Se permitia saborear o destilado. Ia deixando a janta para mais tarde. Se perdesse o programa de milongas, ouviria as cumbias do programa seguinte.

A água da chaleira fervia desesperadamente, derramando gotas suicidas sobre a chapa do fogão.

Ergueu-se e pegou do congelador mais uma pedra de gelo e a garrafa de cachaça. Encheu o copo e guardou. Caminhou até a varanda. Do corredor, olhou os quartos desarrumados. Quase sorriu. Voltando ao centro da varanda, direcionou-se à porta lateral e saiu para o terreiro. Havia parado de chover, mas o céu ainda era escuro, carregado de nuvens poliangas. As galinhas ciscavam, desesperadas por alguma minhoca vulnerável na terra molhada para completar o jantar, antes de recolherem-se ao galinheiro. Um cachorro baio veio cheirar os dedos de Manuel, rogando por afago. O homem recolheu a mão e retornou para o interior da morada, sentando-se, novamente, na mesma cadeira da cozinha.

Tomou mais um trago de canha e voltou a fixar a vista onde o horizonte desenhava formas sombrias nas majestosas nuvens escuras que pairavam imponentes. À medida em que seus olhos vagavam na amplidão, passaram a perceber um facho de luz solar descendo por entre as nuvens. O sol dourado revelava seus raios, lançando-os sobre o campo encharcado. Até que, do campo iluminado, um raio refletido se destacou. Parecia acompanhar a estrada, em direção à velha casa de alvenaria. Uma figura se aproximava, refletindo e irradiando, como um pedaço perdido de estrela.

A ansiedade ofegante embargou o âmago de Manuel, sufocando-o e instigando sua curiosidade, paradoxalmente. Há tempos rogava, secretamente, por uma visita, qualquer que fosse, para lhe entreter, para lhe fazer sentir mais humano. Todavia, era ciente de que não teria o mínimo de tato para tratar com outra pessoa. Enquanto o conflito interno se instaurava na mente do solitário campesino, o facho de luz, acompanhado pela difusa figura, aos poucos, se encontrava cada vez mais perto.

De repente, sem alarde de cachorro, ou estranheza das galinhas, postou-se à porta, dourada pela luz solar, uma vigorosa caveira, trajando bombachas e camisa e calçando alpargatas. Permaneceu estática, banhada de sol, observando Manuel. O homem a encarava, quase surpreso. Sinalizou com o copo, convidando a visita para que entrasse. A chaleira continuava aos prantos sobre a chapa de ferro.

A caveira entrou na cozinha e se aproximou da mesa. Já não era mais dourada. Tampouco o sol persistia com seus esparsos raios sobre as planuras: voltara a chover lá fora. A escuridão se assentava com a pressa de quem tem frio. O visitante acenou com a cabeça e o anfitrião correspondeu alcançando-lhe o copo. Eram duas sombras dialogando no infinito do silêncio. A caveira levou a bebida até a boca e passou a bebê-la. O destilado ia desaparecendo do recipiente, parecendo encher o crânio daquele que degustava, até chegar à altura dos olhos e começar a derramar. Eram lágrimas de canha. Manuel observava estático.

Após as lágrimas se resumirem a meros rastros gravados nas faces do visitante, este e Manuel passaram a encarar-se. Trocavam olhares fixados nos mesmos pontos de observação, como se falassem sobre coisas que só podem ser vistas se superadas heroicas escavações rumo ao centro mais íntimo dos indivíduos. Superados incontáveis minutos da grave encarada, o visitante afastou sua cadeira e ergueu-se em um movimento circular, voltando a frente para a porta do terreiro. Ao posar sob o batente da saída, refez seus tons dourados iniciais. Deu uma breve espiada sobre o ombro, como se convidasse Manuel para a estrada, e seguiu seu rumo em ritmo de certeza.

Manuel correu até a porta e espiou a caveira dourada se afastando como o sol de um dia escaldante se pondo e dando vida ao breu de uma noite. Permaneceu como que pendente por estar mal escorado ao marco da porta. Fechou um pouco os olhos, mantendo a caveira em seu alcance, e os embargou com ardidas lágrimas de canha. Aos poucos, enquanto priorizava o tato aos outros sentimentos, sentiu a noite pesar nos ombros e, ao erguer as pálpebras e olhar para trás, pode ver a casinha rodeada de solidão, onde sua última memória ainda pendia do marco da porta. Quando conseguiu, enfim, perceber-se dourado, Manuel já não sentia mais o forte aperto da solidão: agora ele não vivia longe de todos, pois fazia parte de tudo.

Só Água

Só Água

De mochila às costas – já com barraca enrolada e outros penduricalhos – Álvaro se dirigiu até a pedra grande que fica perto da praia dos pescadores e foi dialogando com o mar. A botina, erguendo pequenas nuvens de areia, tinha algo de divino – pegadas ao vento. Era o fim das férias, os pés sabiam disso. E andavam à beira do mar quase como se quisessem retroceder o tempo. O corpo todo se despedia, dolorido, da energia envolvente que tem a mesma água que toca todos os anseios de inúmeras pessoas, nas mais diversas praias do mundo.

Álvaro era de vento e areia. A vontade de retroceder que os passos demonstravam era de água e sal.

Naquela grande pedra, Álvaro, enfim, sentou e fixou o olhar no horizonte. O ônibus era às quatro e vinte. Quando comprou, riu. Agora era a passagem que levava para longe do mar. Não parecia mais ter qualquer graça. O trabalho o esperava. O asfalto o esperava. O sol, nunca mais. Era apenas uma passagem de volta ao consumo. As noites vazias, alguns papos aleatórios, cerveja artesanal. Parecia diferente. Mas não era como ali. O movimento dos bares e da noite não soava como o violão à beira da fogueira, com o mar de fundo. O retorno ao brete do matadouro o esperava.

Uma aranha grande, que corria pela areia firme da beira do mar, perto dali, de repente, se escondeu em um buraco, permanecendo parada até ser invocada por uma vespa. A aranha tentou fugir, mas, ao se ver encurralada pelos rasantes do marimbondo, teve que parar e encarar o que atentava contra si. Morreu depois de perceber que tudo já era, fugindo para o mar e paralisando pelo veneno da vespa. Álvaro era, mais uma vez, de água e sal; uma aranha no ferrão da vespa.

Alguns pássaros planavam. E o olhar de Álvaro permanecia focado no horizonte, como se lá estivessem os olhos do mar e fosse possível encará-lo. O fim de um sonho bom é o abismo da alma.

Três pescadores passaram, de bicicleta, pelo caminho de saibro, rindo e debochando de motivos que só eles próprios podem afirmar. O vento era conselheiro do mar. E, de alguma forma, aconselhou Álvaro.

Com a brisa marítima, Álvaro se desprendeu. Primeiro, foi da pesada mochila. Depois, as botinas caíram feito pedras, até se afundarem no mar infinito. Lançou as vestes para o Norte. E, por último, tirou o relógio do bolso e enfiou na garganta, deixando as enzimas digerirem o tempo. Pulou da pedra para a areia, como se fosse o primeiro homem a pensar que voa. Tateava a areia encharcada com a planta dos pés, até chegar na espuma do mar. Foi, ainda, se desfazendo do asfalto, deixando os relatórios e as fofocas do trabalho pelo caminho. Largou um suspiro junto com os fardos e a inquietude junto à solidão. Então, cada centímetro de seu corpo, ao entrar em contato com a água, foi se dissolvendo na forma líquida. A cada passo que dava, Álvaro se tornava um pouquinho maior. Quando terminou de molhar a cintura, já banhava de Ipanema a Ibiza, do Hermena a São Miguel dos Milagres. Foi se dissolvendo como o pó sagrado de algum deus desconhecido, até ter a água no pescoço. Caminhou mais, mergulhando nariz e boca. Quando seus olhos se tornaram, agora, água e sal, já não havia mais pranto. Cobriu, enfim, os pensamentos com a unicidade do gigantesco mar que era Álvaro. Quando esteve coberto d’água, conseguiu respirar. O cotidiano da sociedade já não mais o sufocava. Agora, era só água.

Queda D’Água

Volta aos sonhos

Estávamos em uma cachoeira belíssima, de onde o céu, pela intensidade do sol atrás dos respingos da queda d’água, me fazia lembrar o dia em que percebi a unicidade dela com a natureza. Pela mão, me conduzia, ansiosa, até uma escadaria de degraus enormes formada pelas pedras contornando o rio. Tudo era de uma beleza ímpar; não podia acreditar no passeio pelo sublime e numinoso de estar naquele lugar tocando, novamente, a mão dela.

Algumas borboletas antecipavam nossos passos, como se indicassem o caminho pelo qual, logo, ela me guiava. Estava concentrada em atingir algum local específico das pedras, andando decidida e concentrada. Eu estava extasiado e também ansiava em chegar a um ponto onde pudéssemos sentar e conversar como há tempos não podíamos fazer. Em verdade, sequer pensava em qualquer atividade específica: apenas desfrutava do toque mágico que a atmosfera do momento me proporcionava. Demos mais uns passos pulando entre as pedras até ela me mostrar um lugar perfeito para sentar, bem ao lado de uma alta parede de pedra que fazia moldura para o cair da cachoeira.

Ela soltou a minha mão de modo que pudesse escalar até o lugar ideal para se acomodar sentada. Após cruzar as pernas em posição de lótus, mostrou à paisagem aquele sorriso de exuberância singular. Era, sem dúvida, um sorriso que fazia o mundo inteiro ao seu redor festejar a própria existência. Entretanto, pela primeira vez, aquele riso aconchegante não chegava até mim, pois seus olhos já não tocavam os meus. Ela olhava a natureza no entorno daquele ponto privilegiado onde sentou e demonstrava, com feições incomparáveis, sua gratidão pelo momento, como sempre fazia, mas parecia não me enxergar.

Sua aparente indiferença fez como se eu fosse lançado nas profundezas da parte mais gélida do rio que fluía sobre as pedras. Por qual motivo poderia ter me conduzido, pela mão, até um lugar tão exuberante e de atmosfera tão mágica se não me brindaria com sua atenção? Que sentido fazia que ela voltasse, depois de um distanciamento tão intenso e tão cortante, me conduzindo até o sublime universo contido sob os respingos de uma cachoeira, para agir como se a minha presença não tivesse para ela qualquer relevância? O que eu queria, naquele momento, era só romper a redoma de indiferença que contornava as fronteiras daquele ser dotado de luz e magia e beijar-lhe intensamente a boca antes de um abraço quase esmagador. Mas ela parecia estar muito além de ânsias como as minhas. Cheguei a acreditar que ela estaria acima até mesmo da saudade, o que me vestiu de uma mágoa pesada nos ombros. Pude identificar meu sentimento infantil de quem recebe meias de presente no Natal e observa o irmão ganhar o brinquedo mais vistoso, apesar de não conseguir evitar aquele conflito entre a inveja do não sentir nada que ela demonstrava e o desejo vívido no sentir profundo da saudade. Como ela podia se manter alheia à rara oportunidade de estarmos novamente reunidos, como dois córregos que se unem, em um mesmo beijo? Ultrapassava qualquer possibilidade de compreensão, a partir do meu ponto de vista.

Fitei mais uma vez aquele sorriso radiante e todo o encantamento que seu olhar transmitia. Eu estava em meio a uma tempestade de sentimentos, tentando me defender dos trovões de saudade agarrado à beleza do momento e do local mostrado por ela. Impulsionado pela aflição, passei a gritar. Perguntava porque ela teve de me deixar; se ela não poderia esperar mais um tempo, me levar junto ou ficar mais um pouco, nem que fosse com a indiferença aguda e fria que agora esboçava.

De repente, o universo em que eu me encontrava inserido se tornou abstrato até se converter em apenas um olho gigante e enigmático, que me encarou com intensidade e explicou:

– Represento, hoje, teu ego. Apesar da queda d’água, deixa o rio correr livre e teu espírito irá desaguar na liberdade.

Solucei aos prantos até acordar na minha cama vazia.

Velha Touca Colorida

Velha Touca Colorida

Andava por aquele lugar sem fazer ideia de onde estava. Os corredores brancos, excessivamente iluminados, se estendiam com pressa à minha frente. Sempre orientado por pessoas que sabia serem enfermeiros, seguia o fluxo intenso feito correnteza até alguns lugares aos quais compreendia a importância de ir para retomar a mecânica usual de meus pensamentos.

Depois dos corredores, cansado de tantas orientações dadas no sentido de uma possível recuperação, preferi me esconder no leito reservado para mim. Não sei quantas pessoas vagavam por aquele quarto, conservo a impressão de que eram muitas, de modo que permaneci imóvel para não ser percebido pelas responsabilidades que minha própria saúde impunha. Quieto e com os olhos fechados, desejava fortemente uma volta no tempo. Pensava que, se pudesse me deslocar com livre acesso na dimensão temporal, estaria, àquela hora, andando na direção de um ano ou dois atrás.

Enquanto divagava acerca de quão ideal seria estar em outro lugar tanto no tempo como no espaço, quase não percebi a silhueta que se apresentava à minha frente, no ponto exato que podia ser alcançado pelos meus olhos quase escondidos entre os cobertores e lençóis. Sentado com as pernas cruzadas, uma mão de punho fechado apoiando a cabeça pelo queixo e a outra relaxada no braço que descansava sobre a perna, estava um homem moreno, de nariz grande e bigode de fios compridos quase escondendo o suave sorriso enigmático, me fitando com olhar amistoso.

Surpreso e com uma sensação plena de acolhimento, expulsei os lençóis e sentei na cama erguendo o tronco em sincronia com o movimento de meus lábios ao desenharem um sorriso enorme. Olhando no fundo dos olhos escuros, pude perceber que eu já conhecia aquela alma. Um dos únicos a compreender minhas angústias, desde o tempo em que estas eram adolescentes, e aquele que melhor as aconselhou nesse período, o poeta que de cara desnudou as alucinações de suportar o dia-a-dia, estava sentado na cadeira em minha frente, próxima à cama. Se eu não fazia a menor ideia naquele momento da história de quem eu era, tinha certeza de que não seria nem essa dúvida de coração pulsante sem ter vivido com as composições daquele irônico iluminado aos ouvidos.

Confessei, como para puxar assunto, que seria capaz de matar alguém por um cigarro e uma coca-cola. Ele riu contidamente. Disse que se eu fumasse e bebesse o refrigerante já estaria matando alguém. Aliás, concluiu, mesmo que não bebesse ou fumasse eu estaria participando da morte desse alguém. Destilou sua ironia, me acolhendo em um humor que era confortável para minha alma perdida entre dimensões. E, apesar da minha grande curiosidade para perguntar sobre o que era afirmado e o que era negado nos versos belíssimos, ora sarcásticos, ora de uma poesia sublime, quase lúdica, preferi me esforçar por manter um diálogo leve. Não queria chatear um ídolo tão significativo para mim.

– Sabe, tem dias que eu ando por aí e penso sobre o ser e o estar. Neste momento, por exemplo, será que eu faço parte de um delírio seu ou existo em alguma realidade paralela àquele plano em que frequenta hospitais etc? – questionou, depois de um bom tempo de conversa. Foi como se em um estalo eu percebesse que também não tinha a menor ideia de onde estava.

– O que é real, ao fim e ao cabo? Se eu tenho um sonho lúcido (bem lúcido), vívido a ponto de eu sentir como real, pra minha mente é real. Precisa que todo mundo veja? O que é real? – indaguei sem conter na voz as emoções que externavam minha balança interior.

Ele apenas gesticulou, como se compartilhássemos dúvidas relevantes emocionalmente para ambos.

Um pouco depois desses momentos de exaltação, ouvi alguém chegando no quarto, falando com uma voz familiar. Essa pessoa me chamava longe e eu ouvia com familiaridade seu timbre. Percebi que eu deveria, ao menos por hora, me despedir do poeta e dar atenção a esse timbre familiar.

– Tenho que ir, meu caríssimo. Agradeço muito a visita, mas tenho a impressão de ter ouvido a voz de Anabelle aqui no quarto, só que em outra dimensão física. Depois que chacoalhou o cérebro na coqueteleira do crânio, tenho feito esse tipo de confusão.

– Imagina! Vai lá. Alguns de nós não podem voltar pra essas dimensões: essa roupa já não nos serve mais – me disse o calmo homem. E, logo advertiu: – viva o que for presente e não se confunda com as dimensões: acho que vi Anabelle pelos lados de cá.

Desde então, nunca mais ouvi o cantor. Além disso, não tenho bem certeza de em quais corredores tenho andado, conservo somente a certeza de que até as músicas boas se calam.

 

Acima das Nuvens

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Fui subindo, ao lado dela e, sem perceber, me vi acima das nuvens. O sol destacava os cerros, mas o vale era inteiro de algodão. Uma paz me invadiu o âmago, tranquilizando tanto os anseios que povoam o cotidiano, quanto aqueles que moram latentes no fundo do peito. Segurei sua mão e, aos poucos, senti a noite se assentar nas planuras, para além do calor daquele corpo moreno. Observamos as cidades como uma série de pequenos adornos de ouro que surgiam por baixo das nuvens – agora mais esparsas – em alguns detalhes do pano negro dos campos noturnos. Pude sentir, nas veias, o tanto de estrela que herdei do sol.